sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Adeus Liberdade. Viva a Liberdade!
Não é raro uma cultura associar o seu mito fundador a uma derrota. E poucas derrotas terão tanto significado para a cultura ocidental como a de Termópilas, o desfiladeiro onde um punhado de gregos resistiu heroicamente ao rolo compressor do maior exército desse tempo, o do imperador persa Xerxes. Foi há quase 2500 anos e a luta determinada que os gregos então travaram, e de que acabariam por sair vitoriosos, foi associada por Heródoto, o primeiro dos historiadores, à luta pela liberdade. “Os gregos querem permanecer livres. Eles só obedecem à lei, não aos comandos de outros homens”, terá dito um emissário grego ao imperador Xerxes, cabeça de um império centralizado e despótico. O preço dessa liberdade, como se comprovou em Termópilas, era elevado, mas “os gregos amam a liberdade sob a lei e vão combater por ela”, como disse o emissário.
Cinquenta anos depois, um outro historiador, Tucídides, colocaria na boca de Péricles, o líder de Atenas no seu século de glória, o elogio do governo da “coisa pública em liberdade”. Na oração fúnebre aos soldados que haviam morrido pela sua cidade, elogiou os que, “graças ao seu esforço”, haviam legado à posteridade aquelas terras “livres”. E foi mais longe. Disse que “felicidade é liberdade e liberdade é coragem”, o que faz com que não se hesite mesmo “perante os perigos da guerra”.
É nestas raízes antigas que o Ocidente funda a sua tradição de Liberdade. Tal como a funda na sua expressão moderna que foi formalizada pela primeira vez na Declaração de Independência dos Estados Unidos, onde se invocam os “direitos inalienáveis, entre os quais se contam a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade”.
José Manuel Fernandes, XXI Ter Opinião 2013, Fundação Francisco Manuel dos Santos, pag.1
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
O mar das maravilhas e dos demónios
Com o objetivo de explicar a origem do mundo, as antigas cosmogonias e as suas narrativas mitológicas elaboradas no contexto da bacia mediterrânica (Mare Nostrum) procuraram sempre personificar e incluir o elemento aquático de uma forma bastante diversificada. Assim, na Teogonia de Hesíodo encontra-se uma explicação para o aparecimento das diferentes entidades marinhas:
A Terra gerou, em primeiro lugar, um ser de dimensão semelhante à sua,
O Céu, coberto de estrelas, para que a cobrisse, toda inteira,
e fosse dos deuses bem-aventurados a eterna e segura mansão.
Ninfas que habitam as montanhas recortadas.
E deu ainda à luz o mar estéril onde se encrespavam as ondas,
Ponto. Todos eles nasceram sem intervenção do amor. Depois,
fecundada pelo Céu, deu à luz o Oceano de correntes profundas…
Todas estas formas elementares da Natureza, que não tinham ainda o estatuto de divindades, não tardaram, por sua vez, a trazer ao mundo uma numerosa descendência e, por exemplo, Tétis e Oceano geraram três mil cursos de água e rios divinos. Estes cursos de água são atualmente menos conhecidos do que os filhos dos primeiros deuses, esses anfitriões do Olimpo, tal como o filho de Cronos e de Reia, Poséidon. As suas numerosas aventuras galantes povoaram rios, ribeiros, fontes e lagos com divindades, destacando-se as Nereidas, e entre estas Galateia, cujas formas se confundem por vezes com as das tentadoras e impiedosas sereias. Assim, provavelmente as lendas atribuídas a Hesíodo davam, mais ou menos fielmente, corpo a séculos de experiência e especulações religiosas e literárias, formalizando o misterioso imaginário marinho, incomensurável, insondável e imprevisível, mas também útil, generoso e sobretudo grandioso e magnífico.
Todo este mundo divino interveio nas aventuras dos homens e dos heróis em peripécias que serão narradas, com deleite, por Homero na Ilíada ou na Odisseia. Este destino poderá aparecer não só como representação alegórica, mas também como protagonista de numerosos episódios que serão retomados e enriquecerão outros textos posteriores. Podem estes ser religiosos, como no Antigo e novo Testamento, ou épicos, na origem das identidades nacionais – tais como La Franciade de Ronsard, de 1572, ou Os Lusíadas de Luís de Camões, no mesmo ano, contemporâneos das traduções dos grandes textos antigos, antes dos romances de aventuras, fundadores de mitos modernos, que surgiram a partir do século XVIII, como Robinson Crusoé de Daniel Defoe até A Ilha do Dia Anterior de Umberto Eco.
Dominique Lobstein, As Idades do Mar, Fundação Calouste Gulbenkian, 2012, pp. 39-40
Quadro: A Sereia, 1893, de Giulio Aristide Sartorio
A conceção mínima de moralidade
A conceção mínima pode agora ser apresentada de forma breve: a moralidade é, pelo menos, o esforço para orientar a nossa conduta pela razão – isto é, para fazer aquilo a favor do qual existem melhores razões – dando simultaneamente a mesma importância aos interesses de cada indivíduo que será afetado por aquilo que fazemos.
Isto oferece, entre outras coisas, uma imagem do que significa ser um agente moral consciente. O agente moral consciencioso é alguém preocupado imparcialmente com os interesses de quantos são afetados por aquilo que ele, ou ela, fazem; alguém que cuidadosamente filtra os factos e examina as suas implicações; que aceita princípios de conduta somente depois de os examinar, para ter a certeza de que são sólidos; que está disposto a «dar ouvidos à razão» mesmo quando isso significa ter de rever convicções prévias; alguém que, por fim, está disposto a agir com base nos resultados da sua deliberação.
James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, Tradução F.J. Azevedo Gonçalves, Gradiva, Lisboa, 2004, pp. 31-32
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